sábado, 17 de dezembro de 2011

De Malas Prontas.





Fez as malas. Depois de protagonizar a possível tentativa-salvadora-de-frustrações em ser uma garota-mulher, séria e cheia de defesas, não se resistiu. Caiu na tentação involuntária de ser ela mesma para estar um pouco inteira em tudo o que poderia lhe trazer o mínimo de felicidade sincera. Precisava ser plena em cada gesto. Precisava não temer o próximo passo. E foi. Saiu desenrolando caraminholas furtivas, entregando pequenos segredos inusitados, tirando as roupas da alma em sorrisos descompassados, brincando de querer com toda a beleza da honestidade corajosa. Sentia-se livre para cantarolar vontades inéditas, pesadelos oportunos, suspeitas ensaiadas. Foi bonito até o medo vir na contramão. E veio. Um medo que não era dela, mas tinha seu nome; o medo silencioso de um personagem que hesitava em ir além.
De repente, o céu do quarto ficou nublado, atrapalhando toda e qualquer perspectiva de estrela. Resolveu insistir. Pintou as unhas de Tentativa Sem Ideia e encarou a espontaneidade blindada com a vontade de sentir acontecer cada sorriso que imaginou. Não deu certo. Era impossível abraçar sozinha o querer que poderia ser de dois. A partir dali, caiu de pára-quedas em mais um degrau do amadurecimento. Transformou ansiedade e frustração em palavras e aprendizado. Arrumou o peito cuidadosamente, vestiu-se toda de pedra para não mostrar a flor de dentro e foi costurando paetês no sorriso.
Mas ainda havia qualquer vestígio que a fez soletrar mentalmente cada recordação para tentar descobrir o que faltou na ordem dos gestos para deixá-los sem sentido. Desistiu. Deixou suas marcas e recebeu impressões. Sorriu pelas ideias tolas as quais isso lhe remetia. E guardou-as. Resolveu eternizá-las nas melhores pinturas imaginárias e seguir. Viu no tempo uma criança que sai correndo serelepe, descobrindo o alvoroço do próximo passo e precisava acompanhá-lo. Então, fez daquele sentimento um trampolim para o dia seguinte, maquiou vestígios, soltou o cabelo, olhou uma última vez para trás e pôs os pés pra fora daquela crônica. E apesar do esforço, de malas prontas, o que mais pesava era o coração.



(Breve história sobre Manuela, uma figura inventada.)

9 comentários:

Alana Ávila disse...

ai-meu-coração

Luana Rebouças disse...

Ousadia. (esse texto não faltou.. nem nessa história)

Jak Farias disse...

Lindoooo!Um dos melhores que já li!

fidelalado disse...

Impossível não traçar um paralelo com minha história de amor predileta...Aquele, insustentável de tão leve que é o ser!

~ Rosi disse...

movimento diário de contrariação das tentativas ilusórias de auto-proteção que só insultam o coração. Mas, a vida fala mais alto, das mais autêntica forma! Esqueci os chinelos debaixo da cama... :)

Araújo Júnior disse...

Bela trama, tece perfeitamente uma recorrência sôfrega, mas não confusa. Lembrei-me do Noveau Roman francês.

Silene Neves disse...

Seu blog é lindo! Parabéns!

Vc escreve de maneira impressionante!

Beijos... e uma semana de paz!

Com carinho

Sil

Tainã Almeida disse...

Os adultos vivem dizendo que a adolescência é um dos perídos mais
marcantes da vida. Mais o que o adolescente pensa disso? (sinopse do meu blog)
Acessa o meu blog?
"Blog de uma adolescente"

http://blogdeumagarotaadolescente.blogspot.com/

Espero a sua visita, se gostar do meu blog, segue lá, ficarei muito feliz.
Desde já obrigada, tenha uma ótima semana.
Atenciosamente Tainã Almeida.

Crisneive Silveira disse...

Pra registrar a coincidência de eu ter escrito este post no dia em que o blog completou 6 anos. Apreensiva em escrever, não lembrei do aniversário. :)